Ensaio de uma Obra
Fragmentos de um Autorretrato
29 de abril, 2026
Minha vida foi tecida de interrupções e abandonos, como convém a toda obra de arte. Alguns, involuntários, que o acaso ou a fortuna trazem; outros, voluntários. Sujeita, enfim, aos (in)fortúnios que toda obra está.
Toda obra de arte, assim que iniciada, tem seus momentos de interrupção: porque o artista está preparando o material da próxima pincelada, porque foi pegar um cafézinho, porque tem que dormir, porque tem uma reunião com seu mecenas, ou porque seu pincel quebrou e sua tela se rasgou; também tem sempre seu momento de abandono: porque a obra está “acabada”, porque tem prazo e não lhe cabe mais meditar sobre a próxima mistura de cores para a próxima pincelada, porque ele precisa seguir em frente e se empenhar em sua próxima obra; ou, mesmo, porque ela já está em um estado em que não lhe é mais possível fazer nada, seja para restaurar-lhe à glória incialmente projetada, seja para dizer que está satisfeito com ela ao tê-la “terminado”.
Similar foram as relações que tive ao longo de minha vida, seja com pessoas, ou com empreendimentos; por vezes, interrompi e as tive interrompida; por outras, abandonei e as tive abandonada.
Mas, sendo como artista ou observador, nunca consegui vê-las como um final. Sempre tive em mim um certo desinteresse que não se amargura delas. Afinal, toda obra de arte, mesmo que interrompida, pode ser retomada, e talvez até com mais vigor; e, quando acabada, e há tempos presente apenas num acervo de um museu memorial, sempre será passível de uma restauração que lhe renove de volta à sua glória.
Nem todos veem desta forma, isso me causa pesar, mas não me frusto. Ora, toda obra de arte, para ser bem restaurada, requer profissionais disponíveis, motivados, fiéis e conhecedores da obra original, capazes de trazer-lhe de volta à vida ao invés de destruí-la de uma vez por todas.
Além do mais, mesmo que arruínem por completo a obra original, ainda é possível que a refaçam do zero, mesmo que já não envolva o criador original e seus materiais — eis o navio de Teseu. Mas, nem tudo é restaurável: não posso restaurar meus últimos anos do ensino médio, ou mesmo reatar um relacionamento com meu finado pai. E, ainda assim, há muito que ainda é passível de retomada ou restauração.
Mas nem toda obra de arte alcança o museu, torna-se famosa ou ganha notoriedade, mesmo que local. Por que, então, o esforço? Ars longa, vita brevis. Ainda que a obra de nossas vidas não perdure além do breve compasso humano, e que tenha sua sobrevida, na memória daqueles que nos foram próximos, apagada, ela ainda terá, oxalá, um lugarzinho no museu divino que é a mente de Deus.
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